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O que o buraco da camada de ozônio pode ensinar sobre o plástico

Eu me lembro do medo. Não aquele medo de manchete, de estatística fria, de relatório técnico que a gente lê e esquece. Era um medo que grudava no estômago, que a gente carregava junto com o protetor solar e o boné, porto após porto.

Em 1984 saímos para a nossa primeira grande aventura, algo que nenhuma outra família brasileira havia feito antes: uma volta ao mundo a bordo de um veleiro. E foi assim, navegando de marina em marina, que fomos escutando os rumores.

Chegava um novo porto, e lá estava o assunto de novo: a camada de ozônio tinha um buraco. Um buraco. Lá em cima. Bem em cima da nossa cabeça. Para quem vive num barco, exposta ao sol o dia inteiro, sem parede, sem teto, sem sombra de prédio, aquilo não era papo de jornal. Era terror puro e sentido na pele.

Naquele tempo não existia essa facilidade toda de hoje, protetor solar de toda hora, roupa com FPS pronta para vestir. A gente se virava como dava. Molhava a camiseta para criar uma camada a mais contra o sol. Boné enterrado na cabeça. Protetor no rosto, no nariz, na testa, tudo que dava para cobrir. Camiseta, boné, protetor… nossa armadura contra um inimigo que a gente nem via, só sentia queimar.

E, no fundo, o que mais doía era a comparação: será que a gente ia acabar como os bichos lá do sul, perto da Antártida, os primeiros a levar o golpe daquele sol sem filtro? Porque, meu Deus, nos iates-clubes só se falava naquilo. “Olha, a camada de ozônio tem um buraco”.

Contava-se de carneiro cego na Patagônia, de coelho cego na Nova Zelândia, de peixe cego não sei onde. Cada porto acrescentava um detalhe mais assustador que o outro. E a gente engolia tudo, porque fazia sentido demais com o que a gente estava vivendo ali, na pele, no convés, debaixo daquele sol que parecia mais forte a cada ano.

Hoje eu sei que boa parte daquilo era exagero: a história dos carneiros cegos, por exemplo, virou lenda. Anos depois, cientistas da Johns Hopkins foram investigar e descobriram que a cegueira nos rebanhos chilenos não tinha nada a ver com radiação: era uma infecção ocular, conjuntivite mesmo. O boato correu o mundo, foi parar até em livro de político famoso, e ninguém nunca confirmou de verdade.

Mas o medo não nasceu do nada. Lá na Antártida, onde o buraco realmente se abria todo ano, a coisa era real: focas e pinguins sofrendo queimadura de sol na pele exposta, nos olhos. E o mais grave, lá embaixo da cadeia alimentar do oceano, o fitoplâncton e o krill (a base de tudo, o alimento de quase todo bicho do mar gelado) sendo castigados pelo excesso de raio ultravioleta. Não eram carneiros de faroeste. Era ciência de verdade, só que sem manchete tão fácil de repetir num iate clube.

E então, em 16 de setembro de 1987, o mundo, pasmem, se mexeu de verdade. Dezenas de países assinaram o Protocolo de Montreal e prometeram parar de usar aquele gás desgraçado, o clorofluorcarbono, o CFC, que estava dentro de cada geladeira, cada spray, cada ar-condicionado do planeta. Trocaram geladeira. Reformularam fábrica inteira. E funcionou!

Décadas depois, o buraco vem encolhendo, ano após ano, e as previsões da Organização Meteorológica Mundial e da NASA falam em recuperação completa lá pelos idos de 2066. Foi, de fato, um dos maiores acordos ambientais já feitos na história da humanidade e 16 de setembro tornou-se o Dia Internacional da Preservação da Camada de Ozônio.

Agora eu queria (juro que eu queria) sentir esse mesmo terror hoje, só que voltado para outra coisa: o microplástico.

E aí a diferença me dói. O CFC tinha dono. Tinha fábrica, tinha nome, tinha um substituto químico esperando na prateleira. O microplástico não tem nada disso. Ele está em tudo: na roupa sintética que eu lavo, no batom, na embalagem do supermercado, no pneu que se desgasta no asfalto, na poeira que eu respiro, na água que eu bebo.

Já encontraram microplástico no sangue humano, na placenta, no leite materno, e até em rios lá no meio da Amazônia, longe de qualquer fábrica. E, ao contrário do CFC, não existe ainda um substituto barato, fácil, abundante, pronto pra virar lei em todo canto do mundo. Tem gente tentando: pesquisa no MIT com micropartícula biodegradável para cosmético, a Embrapa estudando a casca de banana para fazer “plástico”, startup na Europa fazendo embalagem de proteína que dissolve na água.

Mas nada disso, ainda, chega perto da escala de que precisamos.

Acho que o problema é justamente isso: falta o buraco. Falta a imagem que assusta, que se vê, que vira manchete de capa. O buraco de ozônio, mesmo inflado pelo boato dos carneiros, tinha uma coisa concreta por trás: dava para fotografar de satélite. O microplástico é invisível a olho nu, espalhado, quieto. É uma morte de mil cortes, não um golpe só, visível, que assusta todo mundo junto.

Mas eu não esqueço a lição que aprendi navegando naquele ano, de porto em porto, de boné e camiseta molhada: quando o mundo decide, de verdade, que um problema não negociável encontra um caminho. Não precisa ser boato de carneiro cego. Precisa ser vontade. A mesma vontade que trocou geladeira do planeta inteiro. O céu já nos ensinou essa lição uma vez. Falta aprender de novo, antes que o plástico esteja tão dentro da gente que a gente nem sinta mais que dói.

Fonte: UOL

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