Documento indica que no resíduo continha substâncias que favorecem a formação de espuma no rio em concentração 284 vezes superior ao limite permitido
Só neste ano, espuma branca foi flagrada por três ocasiões no Rio Paraopeba, manacial que recebe as águas do Rio Betim e integra a bacia do Rio São Francisco
O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba (CBH Paraopeba) informou nesta terça-feira (28/7) que encaminhou ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Betim (Semmad) um laudo técnico que apontaria indícios de poluição industrial no Rio Betim. Segundo o documento, um resíduo gerado por uma empresa do setor químico instalada no município, teria apresentado concentração de substâncias que favorecem a formação de espuma 284 vezes acima do limite permitido pela legislação, além de alta toxicidade, o que poderia explicar a espuma flagrada ao menos três vezes nos rios Betim e Paraopeba somente neste ano.
O estudo foi elaborado pelo Centro de Inovação e Tecnologia do Senai Minas Gerais (CIT Senai), contratado pela Agência de Bacia Hidrográfica Peixe Vivo, entidade que atua como o braço técnico e financeiro de comitês de bacia. A investigação analisou amostras da água do Rio Betim e de efluentes industriais (nome dado à água descartada por processos industriais) coletadas em junho pelo comitê para tentar identificar a possível origem da contaminação.
Conforme o CBH Paraopeba, o objetivo do envio do laudo é subsidiar as investigações para identificar eventuais responsáveis e embasar a adoção das medidas administrativas, civis e penais cabíveis para interromper o dano ambiental no manancial. “A situação preocupa porque o Rio Betim deságua no Rio Paraopeba, que integra a bacia do Rio São Francisco, uma das mais importantes do país. Caso a contaminação seja confirmada, os impactos poderiam atingir a biodiversidade, o abastecimento de água e outros usos dos recursos hídricos ao longo da bacia”, declarou o comitê em nota.
Sobre o relatório
De acordo com o CBH Paraopeba, os pesquisadores compararam amostras coletadas em dois trechos do rio com outras retiradas de quatro pontos de lançamento de efluentes industriais. Um dos resíduos analisados, aponta o laudo, teria apresentado 567,94 miligramas por litro (mg/L) de surfactantes, enquanto o limite estabelecido pela legislação estadual é de 2 mg/L.
Os surfactantes, também conhecidos como tensoativos, são substâncias presentes em produtos como detergentes, sabões e produtos de limpeza. Elas reduzem a tensão da água e facilitam a formação de espuma. Em concentrações elevadas, podem prejudicar a qualidade da água e afetar a vida aquática.
O laudo também indicaria que esse mesmo efluente possuía pH de 13,04, valor que seria considerado extremamente alcalino. Em termos práticos, isso significa que o resíduo teria características semelhantes às de produtos de limpeza muito fortes, capazes de causar danos aos organismos que vivem na água. Além disso, o laudo aponta que foi registrada concentração de 2.563 mg/L de sódio, enquanto, no trecho analisado do Rio Betim, a água normalmente apresentaria entre 34 e 36 mg/L.
Os testes de ecotoxicidade também chamaram a atenção dos pesquisadores. Segundo o documento, mesmo após ser diluído a 0,2%, o efluente teria provocado a morte de todos os organismos utilizados nos ensaios em até 24 horas. Esse tipo de teste é usado para avaliar o potencial de uma substância causar danos aos seres vivos que habitam ambientes aquáticos.
O estudo também apontou mudanças na qualidade da água do rio. Em um trecho onde a espuma foi registrada, a água deixaria de ser considerada não tóxica antes do ponto de lançamento dos efluentes e passaria a apresentar toxicidade crônica após ele. Isso significa que, mesmo sem provocar morte imediata, a água poderia causar prejuízos à saúde, ao crescimento e à reprodução dos organismos ao longo do tempo.
Outra alteração observada e que consta no documento teria sido a redução de 83% da clorofila, pigmento presente em algas microscópicas responsáveis pela produção de alimento na base da cadeia alimentar aquática. Os pesquisadores também verificaram queda de 84% no zooplâncton, conjunto de pequenos organismos que serve de alimento para peixes e outras espécies. Para os especialistas, esses indicadores sugeririam impactos importantes sobre o equilíbrio do ecossistema dos rios.
Fonte: O TEMPO Betim
